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A reforma tributária ainda nem entrou completamente em operação, mas já começou a provocar um movimento silencioso dentro das empresas. E talvez esse seja o ponto menos percebido fora das áreas fiscal e financeira.
Durante muitos anos, o debate tributário no Brasil ficou preso entre conformidade, discussão jurídica e guerra de incentivos fiscais. Agora, pela primeira vez, grandes empresas começam a tratar a reforma como aquilo que ela realmente é: uma mudança estrutural de competitividade, margem, fluxo de caixa e operação.
Foi exatamente esse o tom da conversa com Orivaldo Padilha, executivo com mais de quatro décadas no varejo e passagem por Grupo Pão de Açúcar, Carrefour, Walmart e Via.
Em vários momentos da entrevista concedida com exclusividade aos Bastidores do Tributo, conduzida por Paulo Zirnberger, ficou claro que a preocupação dele não está apenas na legislação. Está principalmente na velocidade com que algumas empresas ainda estão reagindo.
“O maior risco é a empresa não estar tratando esse tema com a prioridade necessária”, afirmou.
A fala parece simples, mas resume um dos maiores desafios da transição. Muitas empresas ainda tratam a reforma tributária como um tema restrito ao jurídico e à área fiscal. Na prática, porém, seus efeitos já alcançam a precificação, as negociações comerciais e toda cadeia de suprimentos como tecnologia. As margens, o capital de giro e a geração de caixa também são afetadas.
“Reforma tributária não é assunto do tributário. É assunto de CEO, CFO, comercial e operações”, disse Padilha.
Essa talvez seja a principal mudança de mentalidade que começa a surgir no mercado.
Um dos pontos mais fortes da entrevista aparece quando Padilha fala sobre incentivos fiscais.
Segundo ele, a reforma tende a reduzir uma distorção que moldou boa parte da competitividade do varejo brasileiro nas últimas décadas: a diferença entre empresas que operavam com grandes benefícios fiscais e aquelas que nunca tiveram acesso aos mesmos mecanismos.
“A reforma vai equalizar o jogo competitivo entre empresas que têm incentivo fiscal e empresas que nunca tiveram.”
O comentário ganha ainda mais peso quando se observa a dimensão desses benefícios. Em 2024, os gastos tributários federais somaram cerca de R$ 537,6 bilhões, segundo a Receita Federal. Estudos da UNAFISCO e da FENAFISCO estimam ainda R$ 266,5 bilhões em renúncias fiscais estaduais e municipais.
Na prática, a reforma começa a desmontar um modelo em que, muitas vezes, a vantagem tributária acabava sendo tão ou mais relevante do que eficiência operacional.
Ao mesmo tempo, a transparência tende a aumentar. Governos, empresas e sociedade passarão a enxergar com mais clareza quanto cada setor efetivamente recebe de benefício tributário.
“O Brasil evoluiu muito em transparência tributária, e isso começa a incomodar”, afirmou.
Se existe consenso entre executivos que já mergulharam no tema, é que a transição será muito mais difícil do que parte do mercado imagina hoje.
Empresas terão de operar simultaneamente dois modelos tributários durante anos. Isso significa rever contratos, sistemas, regras de precificação, parametrizações fiscais, estrutura comercial e até modelos de negociação com fornecedores.
O Governo Federal trabalha com uma alíquota de referência de 27,5% para a soma do IBS e da CBS, percentual utilizado nos estudos oficiais do Ministério da Fazenda. Para setores com baixa capacidade de creditamento, como software e serviços, esse percentual pode representar aumento relevante da carga efetiva, dependendo da estrutura de custos.
“Tudo vai piorar antes de melhorar”, resumiu Padilha.
A frase parece dura, mas conversa diretamente com a realidade operacional das grandes empresas.
Boa parte das organizações ainda não percebeu que a reforma não será implementada apenas pelo tributário. Ela exigirá integração pesada entre áreas financeira, comercial, de tecnologia, supply chain, pricing, controladoria e operações.
Um dos temas mais sensíveis é o split payment, mecanismo que permitirá o recolhimento automático do IBS e da CBS no momento do pagamento. Na prática, parte do valor da venda poderá ser direcionada ao Fisco antes de ingressar integralmente no caixa da empresa, alterando a dinâmica do capital de giro e da conciliação financeira.
E existe um agravante: falta gente preparada para fazer isso acontecer.
“Existe um risco real de apagão de profissionais tributários.”
A preocupação faz sentido. O sistema brasileiro já opera hoje com um grau de complexidade extremamente elevado. Em muitos casos, áreas fiscais inteiras vivem consumidas pela manutenção do compliance operacional.
“Existe um imposto invisível no Brasil: o custo de operar em compliance.”
Talvez essa seja uma das definições mais precisas sobre o ambiente tributário brasileiro.
Outro ponto importante da conversa é a transformação do papel da área tributária dentro das empresas.
Historicamente, grande parte dos times fiscais foi estruturada para responder obrigações acessórias, fiscalização, SPED, apuração e contingência.
Agora o movimento parece ser outro.
“O profissional tributário precisa deixar de ser apenas operacional e se tornar estratégico.”
Na prática, isso significa aproximar o tributário da tomada de decisão do negócio.
Padilha contou que chegou a colocar profissionais tributários dentro da área comercial para apoiar negociações e decisões de compra e venda.
“Nós colocamos um tributarista dentro do comercial.”
A experiência, segundo ele, funcionou bem justamente porque a reforma começa a aproximar definitivamente a tributação de margem, preço e competitividade.
Talvez o trecho mais importante da entrevista seja a percepção de que a reforma criará uma nova camada de competição entre empresas.
Não será apenas uma disputa jurídica sobre interpretação tributária.
Será uma disputa de execução.
As empresas que conseguirem reorganizar processos, integrar ERP, automação fiscal, inteligência tributária, contratos, logística, compras, estoque, distribuição e tecnologia da informação provavelmente sairão na frente.
A regulamentação também prevê instrumentos para suavizar a transição. O Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional contará com R$ 630 bilhões entre 2029 e 2043, enquanto o Fundo de Compensação de Benefícios Fiscais terá R$ 160 bilhões entre 2029 e 2032. A Zona Franca de Manaus continuará com tratamento constitucional diferenciado até 2073. Ministério da Fazenda – Reforma Tributária
“A reforma tributária não será vencida pela empresa que entender melhor a lei”, afirmou Padilha. “Será vencida pela empresa que executar melhor a transição.”
Essa talvez seja a frase que melhor define o momento atual do mercado brasileiro.
Mais do que uma mudança legislativa, a reforma tributária inaugura uma nova lógica de competição baseada no planejamento tributário, gestão financeira, não cumulatividade, crédito amplo, cadeia de valor, governança, tecnologia, eficiência operacional e capacidade de adaptação.